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Que se lixe a opinião pública!
22/05/2009 17:52

Dia 6 de maio, o deputado Sérgio Moraes (PDT-RS), então relator do Conselho de Ética da Câmara de Deputados, apresentou relatório no qual informava que não via nenhuma irregularidade nas atividades do deputado Edmar Moreira, acusado de não declarar no imposto de renda uma propriedade avaliada em R$ 25 milhões. Perguntado por uma repórter se não tinha medo da reação da opinião pública, o deputado responde: “Estou me lixando para a opinião pública. Até porque parte da opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege” (Zero Hora, 7 de maio de 2009 p. 6).

A declaração do deputado é muito significativa e diz muito da difícil noção da opinião pública no Brasil, tão popular, principalmente, no campo jornalístico. O que o deputado afirma é bastante próximo do que acontece na vida política do país, pois no que pese a constante publicização da malversação das verbas parlamentares por parte de deputados e senadores, estes realmente só têm sua vida política cortada quando são cassados por seus pares, pois os eleitores reelegem muitos dos acusados de corrupção. Como entender, então, este distanciamento entre o clamor da opinião pública e o comportamento eleitoral?

O caminho para entender este problema passa pela análise do que se convencionou chamar de opinião pública. Não vou entrar aqui em uma difundida discussão sobre o caráter da opinião pública. Vou partir de um outro patamar e admitir que a opinião pública existe e constitui-se na formação de um senso comum, por parte dos cidadãos de uma dada comunidade sobre temas que têm publicidade, de caráter político ou não. Esta definição, ainda que precária, me permite avançar na problemática que gostaria de levantar. Para tal, duas questões são importantes de serem consideradas: Quem forma a opinião? Qual é o conteúdo básico que concretiza esta opinião? As respostas são simples, mas apontam para questões complexas da sociedade brasileira: quem forma a opinião é a classe média urbana do país em seus mais diversos matizes. Isto deixa de fora da opinião as classes populares majoritárias no conjunto da população. A razão para isto está na resposta da segunda pergunta: o conteúdo da opinião pública é de caráter eminentemente moral e privado, a classe média se coloca ferrenhamente contra a corrupção e malversação do dinheiro público porque entende que o Estado, ou o governo de ocasião, está roubando seu imposto, seu dinheiro.

A opinião das camadas populares sobre a corrupção é muito parecida com a da classe média, todavia, por sua posição relativa na pirâmide social, não se sente roubada, porque não tem posses, não paga o imposto mais visível , o Imposto de Renda. A corrupção e a malversação das verbas pública passam a ser vistas pelas classes populares como um problema das elites que roubam entre si. Daí se poder fazer uma distinção entre opinião pública e opinião popular, e para a última o que interessa na vida política é a melhoria de sua vida material. Ela vota em quem lhe parece com melhores condições de responder às suas necessidades.

Para que esta situação tenha uma feição diferente, a solução não é esperar que as camadas pobres da população tenham adquirido bens que possam ser “roubados” pelos políticos, ou que sejam mais educadas para entender melhor o contexto político, porque continuar-se-ia a ter uma visão particularista e privada da relação do cidadão com o político.

A questão é de outra ordem e se concretiza na ausência da internalização por parte da população brasileira do sentido de coisa pública como direitos, bens e valores que pertencem ao conjunto da população independentemente de classe social, sexo, etnia, idade ou qualquer outra marca diferencial. Agrega-se à coisa pública o interesse público, resultado de um embate público entre forças sociais. O interesse público não é um somatório, nem tem um conteúdo fixado a priori por qualquer princípio um qualquer grupo no poder, mas revela o estado do equilíbrio de forças em uma dada sociedade. Não é, entretanto, o efeito de exclusão de setores sociais, mas o de inclusões sucessivas, que deve redimensionar direitos e interesses de classes e grupos constantemente.

Só a internalização de um sentido de coisa pública, de interesse público, é capaz de provocar um deslocamento do privado para o público na construção de uma opinião pública. Desta forma, a classe média deixaria de pensar que estão roubando seus bens particulares, e as camadas populares, que a malversação do dinheiro público e a corrupção são questões que não lhe dizem respeito.

A problemática que se mantém e que deve ser ainda discutida é a de por que o Brasil tem esta carência tão marcante da coisa pública.


Texto publicado como Tema para Debates no jornal Zero Hora do dia 17 de maio de 2009
Celi Regina Jardim Pinto é cientista política e professora do Departamento de História da UFRGS

Autor: Celi Regina Jardim Pinto
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