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Artigo
Sempre de bom humor*
28/02/2011 17:44

Moacyr Scliar parecia sempre de bom humor. Esse humor cotidiano suave e fino crescia nos seus livros. Era um contador de histórias que tinha a sofisticação de mostrar-se muito simples. Nos últimos meses, pesquisando sobre a história da Rede da Legalidade, pano de fundo de um dos melhores romances de Scliar, "Mês de Cães Danados", reli duas das suas últimas anedotas sobre aqueles agitados e deliciosos dias de agosto de 1961. Numa manifestação em apoio a Brizola e pela posse de Jango, Moacyr viu-se ao lado de um colega da faculdade de Medicina. Caiu um toró. O cara continuou com seu guarda-chuva fechado. "Por que não abre esse guarda-chuva?", perguntou, enfim, Scliar, "meio irritado". A resposta foi de trovejar: "Contra balas não adiantam guarda-chuvas".

A ironia suave, que faz o grande escritor, vem no comentário de Moacyr Scliar, passados 30 anos do fato, à tirada "altiva" do companheiro: "Eu poderia ter ponderado que contra a chuva, sim, o guarda-chuva adiantaria, mas a grandiloquência dava o tom, sob o temporal". Em outro momento, quando se erguiam barricadas com bancos virados, ele encontrou um "gurizinho", que, chorando, pediu-lhe para dizer aos seus pais, "caso ele tombasse em combate", esse era o tom teatralmente revolucionário, "que tinha lutado por uma causa nobre". Era Marcos Faerman, que se tornaria um combativo jornalista. O fecho de Scliar é um riso doce e nostálgico: "Afora os bancos, ninguém tombou. Os tanques não apareceram, ou porque não tinham saído do quartel, ou porque não conseguiram chegar ao Centro. E aquele dia terminou, como os outros, com chope no bar".

Certa vez, tive uma crise de proporções tragicômicas, como são as melhores e mais produtivas crises existenciais, aquelas que nos devolvem à nossa exata proporção: sou ou não sou um escritor? Comecei a perder o sono por causa dessa questão essencial para a humanidade. Sentia-me um Hamlet de Palomas acossado por fantasmas urbanos. Cheguei a perguntar ao meu barbeiro o que ele achava. Pela primeira vez, calou a boca. Foi aí que, por alguma razão, Moacyr Scliar telefonou para mim. Era sempre muito gentil e divertido. Conversa vai, conversa vem, ele comentou: "Estás escrevendo cada vez melhor". Aí, me animei e falei-lhe da minha dúvida cruel. Ele riu. E não perdoou: "Posso te mandar um certificado".

Escritor prolífico, Moacyr Scliar sempre publicou muito e bem, provando que, como no tempo de Balzac ou de Machado de Assis, escrever bastante não depõe contra ninguém como imaginam os modernos cultivadores da esterilidade, os defensores de um livro só por década ou até por vida. Cheguei a perguntar-lhe num papo com meus alunos: "Escrever muito é ruim?". A resposta dele ainda ressoa nos meus ouvidos como uma gargalhada sutil: "Para quem escreve mal". Por que será que os bons têm quase sempre essa estranha mania de se mandar na frente? Moacyr Scliar se foi. Deixou-nos algumas dezenas de livros e, ao menos, duas certezas: ele foi bom e do bem... imortal.

* Artigo publicado no jornal Correio do Povo em 28 de fevereiro de 2011.

Autor: Juremir Machado da Silva
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