Home   Adão Villaverde Projetos e Leis Agenda de Atividades   Notícias Reflexão Política Outros Artigos Publicações Galeria de Fotos Galeria de Áudio Galeria de Vídeo   Links Indicados Boletim Eletrônico Contato
Bom Dia! Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017 - 10:56:31  
Outros Artigos

Voltar
Artigo
7ª PARADA GAÚCHA DO ORGULHO LOUCO
20/07/2017 14:50

Nossa história “talvez” se inicie por volta do final da década de 80, no início dos anos 90 do século passado, e/ou no reacender das luzes do novo milênio, numa cidadezinha na fronteira oeste do Rio Grande, conhecida como Alegrete. Alegrete é terra de muitos artistas, poetas, bailarinos, cantores, gaiteiros. De gente que adora um baile, uma festa, uma junção, e que adora convidar a vizinhança para o entrevero. Suas origens nos remetem às guerras, revoluções e a conquistas por territórios. São terras que contam causos d’uma gente que estava para aumentar a terra brasileira. Em 25 de outubro de 1931 ganhou autonomia política. Originou cidades: Uruguaiana, Rosário do Sul, Sant’Anna do Livramento, Quarai e municípios uruguaios. Na Revolução Farroupilha, tornou-se a Terceira Capital da República Rio Grandense.

Mário Quintana, Oswaldo Aranha, Rui Ramos, João Saldanha, Demétrio Ribeiro, Maria Amorim e Nico Fagundes são alguns de seus filhos e filhas mais ilustres. São parte desta comunidade de pessoas festeiras e faceiras, que gostam de cultuar a tradição de seus antepassados; compartilhar rodas de chimarrão; o bom assado, prosear em volta do fogo. Adoram cantar:

“Não me perguntes, onde fica o Alegrete
Segue o rumo do teu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete
E ouvirás toque de gaita e violão ...


Num povo assim na fronteira do território brasileiro com os castelhanos, rodeado de água e natureza pampeana, é fácil identificar o orgulho por suas origens, pelo pôr-do-sol, pelos cavalos, pelos ginetes. O difícil é pensar que tem índio grosso distinto. Gente diferente, que aprendeu a viver na fronteira, a cruzar limites e a miscigenar ritmos e linguagens.
Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí
E na hora derradeira que eu mereça
Ver o sol alegretense entardecer
Como os potros vou virar minha cabeça
Para os pagos no momento de morrer

Foi aqui neste lugar, que em 1857, José Joaquim de Campos Leão, Qorpo-Santo, junto com sua família, veio com a incumbência de ajudar a fundar a Escola Primária. Com ideias de vanguarda, o professor Qorpo-Santo defendia uma linguagem que unia o português ao espanhol, ao guarani, ao charrua, pois assim falavam as pessoas neste povoado: uma língua misturada. Defendia, também, que o Brasil se tornasse república. Qorpo-Santo foi considerado “esquisito” e diagnosticado de “monomaníaco”, conforme despacho judicial à revelia das autoridades psiquiátricas, à época, dos hospitais Pedro II (lá do Rio de Janeiro) e São Pedro (aqui do Rio Grande do Sul). O diagnóstico contrariava, inclusive, o Médico Especial do Imperador Dom Pedro II, cujo parecer determinava que "o paciente goza de boa saúde mental".

A história deste povoado traz muitos causos de pessoas como o Qorpo-Santo, que, por perceberem a sociedade repleta de sentidos diversos, foram tolhidos em sua liberdade. Pessoas que foram reclusas por suas diferenças, por pensamentos incomuns, por expressão de ideias próprias contrárias à ordem instituída. Durante décadas, a institucionalização em manicômios, o isolamento nos hospícios, foi o destino reservado a esses sujeitos de singularidade intolerável ao status quo. Há até, quem conte, sobre a história de um trem que viajava pelos pagos da região reclutando os cidadãos que eram levados ao Hospital São Pedro, em busca de tratamento psiquiátrico.

Voltemos, então, ao início deste conto... Por volta da última década do século passado, no acender das luzes do novo milênio, nosso Alegrete, assim como, centenas e milhares de municípios deste Brasilzão, foram incentivados a criarem sistemas locais para acolher e cuidar de pessoas com sofrimento psíquico. E mais... foram estimulados a constituírem as Redes de Atenção Psicossocial/RAPS.

Nossa comunidade constituiu o seu Sistema de Atenção Integral à Saúde Mental, tal qual uma tecelã, costurando artesanalmente uma rede, uma malha. Originou um conjunto de serviços e dispositivos de acolhimento em liberdade e apelidado, carinhosamente, de SAIS Mental. Este nome nos lembra o sal e o charque, elementos da história de nossa comunidade que mistura desenvolvimento, agregação e acolhida à eventual desagregação.

Ao mesmo tempo, só criar os sistemas locais, não é suficiente para mudar o manicômio que está nas cabeças de todos nós. É preciso fortalecer a militância e nos educar permanentemente para que as práticas e a gestão do cuidado venham acompanhadas da técnica libertadora das clausuras em que somos forjados, transformando o que produz desagregação e desequilíbrio em novos modos de viver e acolher as diferenças.

Para tanto, os trabalhadores brasileiros, os usuários de saúde mental e seus familiares, criaram em 1987, no dia 18 de maio, o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, em Bauru (SP), com o lema "Por uma sociedade sem manicômios".
O movimento cobra o cumprimento das leis que regulamentam a Reforma Psiquiátrica: a Lei 9.716 de 1992, primeira lei estadual aprovada no Brasil, originária no Rio Grande do Sul, que neste ano completa 25 anos de sua aprovação, e a Lei federal 10.216 de 2001. Em síntese, a Reforma Psiquiátrica representa a implantação das redes comunitárias, para garantia do direito à atenção em saúde mental em meio aberto, em substituição aos manicômios que, ao invés de tratar, historicamente segregaram e violaram direitos das pessoas com sofrimento mental.
Desde então, muitos movimentos têm sido feitos no país e em nosso estado, para ampliação e garantia do cuidado em liberdade que a Reforma Psiquiátrica brasileira garantiu nessas legislações. No ano de 2004, no I Congresso Brasileiro de CAPS, realizado em São Paulo, nasceu A Parada do Orgulho Louco. Seu autor é o militante catarinense antimanicomial Nilo Neto. Desde então, temos muitas paradas nos estados Brasileiros: Amazonas, Santa Catarina, Bahia, São Paulo, Minas Gerais.
Os gaúchos, desde 2005, também têm levado milhares a debater suas propostas de superação dos manicômios, na Pérola da Lagoa, São Lourenço do Sul, que nos convoca anualmente para o encontro “Mental Tchê”. Animados pelo movimento antimanicomial nacional e gaudério, no ano de 2011 foi a vez dos gaúchos criarem a sua Parada do Orgulho Louco. Alegrete foi o porto seguro para esta mobilização. Levamos à Praça Getúlio Vargas todo o orgulho pela Reforma Psiquiátrica que estamos construindo no Rio Grande, na Fronteira Oeste e no pampa gaúcho. Foram mais de 3.000 pessoas marchando pelo nossos direitos de inclusão, sob a convocatória Não estamos desnorteados, temos vários Nortes.

Em 2012, a Parada Gaúcha do Orgulho Louco/PGOL repetiu o sucesso da primeira, levando à praça pública o respeito e o valor da obra de José Joaquim de Campos Leão – Qorpo-Santo. Neste ano, mobilizamos mais de 5.000 pessoas para afirmar a liberdade e lutar contra o preconceito, com a temática Loucos pela Vida. SUStentando as diferenças!

Em 2013, a 3ª Edição da nossa PGOL convocou mais de 5.000 pessoas para as atividades de mobilização e caminhada dizendo que Ao Preconceito, digo Não! Da liberdade não abro mão!

Já em 2014, sob os dias mais frios do inverno gaúcho, a militância se aquerenciou, e mesmo com toda a “lichiguana” não arredou o pé, afirmando Sou o que sou, porque nós somos!


Autonominados de mentaleiros, estes militantes sabem que nestes encontros nascem novas possibilidades de criação e invenção para esta rede cultural, na medida em que o manicômio mental, este espectro que assombra as práticas, tenciona para que retrocedamos aos tempos sombrios e frios do estigma e do preconceito.

Em 2015, a 5ª Parada Gaúcha do Orgulho Louco/PGOL, convocou para a mobilização contínua, fazendo toda a diferença. Com o tema Amai-vos uns aos loucos! Nossa PGOL entrou oficialmente no calendário municipal e estadual, através da Lei Municipal nº 4.885/11 e Lei Estadual nº 14.783/15. Neste ano também recebeu apoio de conselhos profissionais, como o CRP, o CREFONO, CRESS, COREN e ATTERGS, bem como do Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul/COSEMS e do Conselho Estadual de Saúde/CES-RS. Também foi apoiada por pesquisadores e professores de universidades gaúchas: UFRGS, UERGS e UNIPAMPA e de fora do Brasil, como a Universidad Autônoma de San Luiz Potosí/México e da Universidad Nacional de Córdoba/Argentina.

Em 2016 a PGOL continuou trincheira de luta pela inclusão social efetiva dos loucos e pelo reconhecimento deles como produtores de arte. Cada vez mais atrai militantes e ativistas que buscam transformar a sociedade em um lugar de inclusão dos diferentes e das diferenças. Nosso lema Os Dispostos se Atraem, os Opostos se distraem! convocou milhares à praça pública.

Este 2017 nos desafia a debater e abordar, de forma criativa, o modo como a sociedade vivencia suas contradições, seus gritos de socorro, suas respostas contra qualquer tipo de exclusão institucional em hospícios, manicômios, hospitais psiquiátricos, comunidades terapêuticas, seja onde for que o cuidado seja negligenciado. Nos interessa lutar pelo cumprimento da Política Nacional de Saúde Mental, para que nenhum retrocesso ameace a Reforma Psiquiátrica no estado e no país.

Também é nossa vontade celebrar, através do encontro, as conquistas já alcançadas e que nos garantem a participação na sociedade. Todavia, ainda são inúmeros os casos de pessoas alijadas em seu direito à vida sem discriminações. Estaremos lutando para incluí-las, para transformar o mundo como um lugar para todas e todos. Por isto, fica o convite a toda população gaúcha e mentaleiros deste país, para se juntarem a nós nesta caminhada de tantas conquistas e com tanto a conquistar, e em 27 de outubro de 2017 seguirem o rumo de seus corações, brandindo o lema da 7ª PGOL: “Caminhante não há caminho. Caminho se faz ao LOQEAR!”.

Autor: Judete Ferrari
Veja outros artigos com o tema Artigo.
 
 
Gabinete do Deputado Estadual Adão Villaverde
Praça Marechal Deodoro nº 101 - Gab. 308 - Centro - Porto Alegre/RS - Cep 90010-300
Fone: (51) 3210.1913 - Fax: (51) 3210.1910
E-mail: villaverde@al.rs.gov.br / twitter.com/adaovillaverde