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Reflexão Política

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Artigo
Os Elos da Vertente para o Fascismo
18/08/2017 10:41

Os recentes protestos raciais de extrema-direita em Charlottesville não são atos isolados de um brutal e trágico anti-humanismo. Antes, fortificam uma cadeia crescente de ódio que se propaga aqui e pelo mundo. Juntamente com estes conflitos no solo norte-americano, a “ocupação” por policiais armados em uma audiência pública no Campus Baixada Santista, da USP, que discutia o Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos de São Paulo e a reação virulenta e intempestiva do prefeito paulistano João Dória às legítimas contrariedades contra ele em Salvador, dão a real dimensão dos elos desta vertente para o fascismo e suas tessituras.

Replicam este mesmo padrão de fúria totalitária, junto com um sem número de episódios similares, as recorrentes pregações explícitas de Jair Bolsonaro em favor do preconceito e da violência e a argumentação do ex-secretário da ex-governadora gaúcha Yeda Crusius, Fernando Schüler, no artigo publicado pela The Intercept, intitulado “Como os “liberais” americanos estão “reinventando” a política Latino-Americana”. E, mais ainda, revelam o ponto de vista de sua formulação, pensamento e elaboração, além de suas verdadeiras e reais práticas de ações fora dos limites da política no campo democrático.

Na década passada, a historiadora e jornalista francesa Laure Adler escreveu a biografia da filósofa alemã Hannah Arendt que, perseguida pelo III Reich, teve que se exilar nos EUA. Aliás, que soube manejar tão bem os instrumentos teóricos, mas não despregou dos laboratórios sociais da luta por uma nova sociedade, fundindo formulação e prática como poucos.

Adler acaba revisitando dois clássicos da grande pensadora e filósofa de ascendência judaica, que devem ser livros de cabeceira de qualquer humanista ou de quem ainda nutre minimamente sentimentos de fraternidade e generosidade.

Em “Origens do Totalitarismo”, ela mostra como o Velho Continente permitiu o surgimento da máquina mortífera do holocausto. No livro “Eichmann em Jerusalém”, ela trata da banalização da irracionalidade, a partir do julgamento de um criminoso nazista, que foi sequestrado na Argentina pelo Mossad (serviço secreto) e levado para o Israel, ter julgamento público.

A autora deduz que são fundamentais os pensamentos de Arendt sobre seu tempo e, essencialmente, para entender o breve século XX e compreender como realizou-se a ascensão do nazi-fascismo. Mas, sobretudo, analisou a fenomenologia destes processos anti-humanos, intolerantes e seduzidos por crenças reproduzidas pelas mentiras da propaganda. E vai no nó da questão, quando Hannah reafirma: “…devemos compreender como os povos e os indivíduos puderam aderir à ideia do genocídio. Como nosso pacto social foi definitivamente quebrado. Como a hipótese de uma Sociedade das Nações caiu em ruínas. E como aceitamos o inaceitável: a inutilidade da existência, a sensação de estar sobrando e a recusa do Outro”.

Ainda que não possamos fazer transposições mecânicas de momentos e questões históricas distintas, diante das evidentes conexões que ligam os episódios referidos inicialmente – todos com cortes odiosos, homofóbicos, xenófobos, violentos, desrespeitosos e horrendos – é difícil não fazer as essenciais e imprescindíveis reflexões impostas por esta singular época que vivemos. Na qual os melhores valores produzidos pelo processo civilizatório parecem estar vivendo tempos de criminalização.

Buscar ensinamentos nos raciocínios da grande Hannah Arendt é, sem sombra de dúvidas, ir a uma fonte inesgotável, como outras evidentemente, de conhecimento e de registros para que se enfrente a dinâmica e a materialidade do avanço nazi-fascista, que tentará produzir e reproduzir, há menos de um século, novamente, quem sabe, a maior tragédia com a qual a humanidade se deparou e que provocou a Segunda Grande Guerra, talvez em novas proporções.

Se existe um caminho que todos sabemos que as relações em sociedade não devem seguir, este é o da irracionalidade, da virulência, da soberba, do ódio e do preconceito. Ontem, foram os judeus; hoje são os negros, a juventude de periferia, homossexuais, os pobres e outros excluídos. Mas os elos e o fio condutor da intolerância são sempre os mesmos. Lá, a forma de enveredar ataques às visões de mundo generosas, solidárias, fraternas e humanitárias, era desqualificar e desconstruir a social–democracia e demonizar os comunistas. Agora, os alvos se repetem e as motivações também.

Mas não se iludam: o “protofascismo” é um fenômeno sem alma, sem fundamento ético e totalmente desprovido de qualquer conteúdo que, ao menos, flerte com as questões humanas. O alvo hoje pode não ser você, mas a voracidade desmedida desta corrente desumana, pode, amanhã, bater em sua porta.

É por isto que Arendt já pensava, defendia e sonhava “com um mundo novo, regido pelos direitos humanos, de onde toda a forma de racismo e preconceito seria eliminada”. Infelizmente ela viveu e conviveu exatamente com o oposto e seus registros mostram que tinha enorme identidade com o grande poeta Brecht. Concordando com ele, quando parafraseava Maiakovski, numa espécie de síntese do pensamento e das lições da filósofa, diante do horror da época:

“Primeiro levaram os negros.
Mas não me importei com isto.
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários.
Mas não me importei com isto.
Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis.
Mas não me importei com isto.
Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados.
Mas como tenho meu emprego.
Também não me importei.

Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém.
Ninguém se importa comigo”.

De fato, vivemos um tempo em que a centralidade das ações de origens totalitárias, do monopólico-midiático e da banca financeira é capturar o Estado por dentro e desconstruir a boa política, as instituições democráticas, as representações, as gestões e os programas públicos e republicanos. Especialmente usando um discurso funcional de combate à corrupção e diminuição do Estado. Recorrendo a uma lógica totalmente desprovida de conteúdo e formulação racional na qual, muitas vezes, os contendores não precisam mais fundamentar suas opiniões e posições, uma vez que, à priori, eles são detentores da verdade. Assim não precisam mais legitimá-las perante a sociedade, muito menos junto aos seus, pois a propaganda falsa se encarrega disto. Daí que os motivos reais das diferenças e dissensos, fundamentais para fortalecer a democracia, já não importam mais, podendo ser até omitidos e manipulados. Restando, portanto, aos liderados orientarem-se por pura devoção e fidelidade ilimitada aos seus líderes. É isto que sempre organizou e organiza as vertentes para o nazi-fascismo, seus conteúdos, métodos e práticas anti-humanistas.

Se não interditarmos os avanços da lógica segundo a qual os fins justificam os meios – e que tudo vale em nome dos objetivos finais – o debate e as relações em sociedade não só perderão a racionalidade, mas sairão do leito natural da busca de uma (sociedade) generosa, impondo-se a virulência, o ódio e a raiva como “algo legítimo e natural” destes tempos bicudos.

E, para encerrar e ressaltar a necessidade de reação à ascensão deste fenômeno e seus métodos, que podem aprofundar a derrota e construir a ideia de fracasso de qualquer alternativa humanista, relembro escritos de Trotsky. Ele já dizia “que a pior derrota, é a indigna, a sem honra”. E lá nos anos 30 do século XX, sentenciava: “a tomada do poder pelo nazi-fascismo terá como efeito, antes de tudo, a exterminação da classe trabalhadora, a destruição de suas organizações e vai quitar todo o sentido humanista do futuro de nossa sociedade”.

Trotsky também reafirmava, à época, a importância da construção de uma frente-ampla com capacidade mínima de dignidade, coragem e unidade, e inclusive de se contrapor àqueles que diziam que social-democracia e fascismo eram a mesma coisa.

Portanto, não subestimemos os fascistas, seus líderes e aliados: eles precisam ser enfrentados e combatidos em todas as frentes.

À luta e à unidade de todos os democratas, da esquerda, dos progressistas e dos autênticos liberais e libertários para barrar e derrotar o nazi-fascismo e retomar o embate pela remoção do “entulho’ do golpe de 2016, que nada mais foi do que esmagar a democracia, atacar os direitos e conquistas e de submeter o país ao entreguismo.

Autor: Adão Villaverde
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