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Reflexão Política

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Artigo
SIMPLIFICAÇÕES REGRESSIVAS
21/03/2018 08:41

Na ciência, por exemplo, foi necessário que a bomba de Hiroshima e outros episódios dramáticos se precipitassem, revelando a trágica perpetuação de suas sequelas sobre muitas gerações, para que se percebesse, amargamente, que mesmo as novas tecnologias podem produzir barbárie.

Hoje não acalentamos mais a ideia ingênua de que o conhecimento é sinônimo de belas intenções: quando embalado por naturais virtudes aéticas, (o conhecimento) impulsiona espontaneamente propósitos nada humanistas. Assim agem os que não sabem conviver com diferenças, que deveriam ser entendidas como algo tão natural como o ato de respirar. Preferem a regressividade e o embrutecimento, naturalizando o espírito conservador que domina nosso tempo. Cedem, assim, ao coro dos que não admitem o humanismo, pois este sempre implica o processo da razão.

Entretanto, o mundo regressivo é quase tão velho quanto o mundo humano. Aliás, ambos se produziram antes e se reproduzem ainda hoje mutuamente.

As cidades, fenômeno humano por excelência, foram engendradas no mesmo movimento em que se arquitetaram os sistemas de violência urbana, de instáveis equilíbrios nas inseguras relações em sociedade. As inaceitáveis execuções no RJ, de Marielle Franco e Anderson Gomes, são expressões cabais disso.

É possível, pois, ler a história das sociedades modernas como este frágil equilíbrio entre a regressão e o progressismo, de tensionamento entre o processo da razão e o mundo da irracionalidade.

No singular momento em que vivemos, efetivou-se uma ruptura nesse equilíbrio: um dos pratos da balança desceu sob o peso maior da irracionalidade, em detrimento das determinações da razão, por excelência, humanas.

Não há o que estranhar quando palavras como segurança ou estabilidade adquirem o tom de idílicas promessas para quem a insegurança e instabilidade constituam apenas outros nomes para as formas precárias com que vivem seu pertencimento à sociedade humana. Sobretudo enquanto as grávidas cinturas de nossas cada vez mais perigosas cidades tornam-se, um pouco mais, estes gelatinosos territórios de incertezas, tragédias e violências.

Autor: Adão Villaverde
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