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Reflexão Política

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Artigo
Dessa vez não é apenas pânico americano
15/02/2011 15:27

Claramente o retorno neoliberal ameaça assumir a frente do palco. Não na sua força principal, no máximo de seu vigor; já no seu crepúsculo. E o crepúsculo é a véspera da noite. Um noturno não de Chopin, mas um noturno social tocado pelas órbitas financeiras; e com imagens de quando em vez das escaramuças político-militares. Pois, Martin Wolf, um comentarista conservador do Financial Times, permanentemente defensor das finanças, disse algo surpreendente. A crise financeira mudou muito – e, acima de tudo, ela acelerou a chegada do nosso futuro. A crise, afirmou, foi um acelerador. E aí vem nos argumentos sempre o jogo anglo-saxão. O coitado dos Estados Unidos e da Europa cresceram muito pouco e China, Índia e Brasil cresceram fortemente. (Parece aquela coisa dos anos 80/90, quando os americanos espalhavam o pânico de que os japoneses iriam comandar o mundo. Previam até data!). Mas, o nosso Martin diz que a incerteza está presente todo o tempo. Só que agora, “we know”.

Cena 1 - Se estivessemos num pub inglês, uma cerveja aqui, outra mais tarde e uma terceira logo depois da segunda, o meu colega André Scherer poderia, com seu espírito amigável zombativo, perguntar: “Ora, Martin, você não acha que desde o começo da crise ou, até mesmo, desde 2005, a gente já sabia que a casa estava vindo abaixo?”. Claro, André concederia que a economia é sempre incerteza, mas diria com veemência, ela é de profunda incerteza quando o ciclo termina. E, de fato, foi o que aconteceu. Porém a resistência inglesa é continuada e o Martin, na sua elegância, algo incomodado britanicamente, tentaria ser professoral: “Não, não, André, estou falando do futuro macroeconômico e geopolítico do mundo.” E o André, desafiador e altivo, não hesitaria: “Mas isso nós já estamos falando há muito tempo”.

E, sem dúvida, esse jogo da economia e das finanças já está balançando o salão faz algum tempo. E o que a gente está vendo é, pelo menos, um vasto movimento geopolítico e geoeconômico da China reformulando suas raízes internas, avançando pela América Latina, pela África, pela Europa e beliscando os Estados Unidos. De um lado, fazem o seu joguinho de pequenos aumentos no câmbio junto com paradas estratégicas no referido patamar. E de outro lado, saem às compras e elevam fortemente a demanda de commodities. Claro, junto com as finanças que querem empurrar para a China o crime.. E os americanos estão irritados. Por quê?

Dessa vez não é apenas pânico americano. A China veio para ficar. Tem poder econômico, tem poder político, não tem poder militar, nem cultural sobre o ocidente, mas tem um povo que acha que as coisas estão melhorando muito – a China cresce a dez por cento – e como disse um amigo, é uma nação muito disciplinada e muito obediente. Submissa ao poder, para ser mais claro. E se olharmos bem, lá surge na curva o Jintao, com um sorriso satisfeito, empurrando as suas mercadorias. Pois não foi outra coisa que nos veio dizer Geithner, o secretário do Tesouro americano: a China está com o seu câmbio quase parado; e isto afeta o Brasil. E curiosamente delicado nos disse que o Brasil devia cuidar dos fluxos de capitais, pois estes certamente afetariam a valorização do real. O problema com Geithner é que os Estados Unidos não tem pubs. Talvez num daqueles liquors de estrada a gente pudesse dizer, numa cena 2: “Mas, Thymothy, e esse mundo de dinheiro que o Banco Central americano (FED) está botando nas finanças?”. Geithner, sem nenhuma vergonha, diria: “Meu caro Enéas, eu sou do Tesouro, não quero falar sobre o trabalho do Ben (Bernanke) no FED. Não seria ético”.

Pois, aqui está o nervo da questão e a linha descendente de Obama: o Estado americano jogou trilhões para salvar as instituições financeiras. E, embora o sistema ainda não funcione, a velha idéia da teoria econômica americana está presente: falta de confiança. Isso quer dizer, os banqueiros não conseguem enganar aos banqueiros, e novos produtos da “indústria financeira” não apareceram. Mas, com a contabilidade ainda bichada e com muito dinheiro do FED (ele está botando mais 800 bilhões nesta nova rodada de ajuda), a saída é exportar capitais, aplicar em outras terras. E ora, que surpresa, o Brasil com um taxa de juros espetacularmente alta, com um jogo câmbio-juros notável, torna-se um hospedeiro invejável para os capitais amigos dos Estados Unidos.

E daí, a gente começa a sentir o “revival neoliberal”: as finanças continuam mandando nos Estados Unidos, a indústria voltou a crescer – ou seja, os lucros subindo – sem que ganhe significativamente nas exportações e que aumente de modo insistente os empregos. Mas “a crise foi aceleradora”, exclama Martin Wolf no seu pub londrino. E uma das repercussões no campo das commodities deu-se na elevação dos preços dos produtos agrícolas. E isso pulsa no bolso dos cidadãos do mundo. A comida está cara. E o bolso traz rebeliões e revoltas. O fundo está lá, a coisa combinada: o crescimento da demanda da China, a crise econômica e a volúpia de aplicação financeira. Resultado na geopolítica: é o vento do deserto correndo pela Tunísia, pelo Egito. Vai dar um dominó no Oriente Médio? E, nessa turbulência no Egito, não entra apenas o preço dos alimentos. Entram, também, a necessidade das indústrias bélicas americanas continuarem a vender armas para o Exército local: Boeing, Lockheed e outras congêneres. Basta darem uma olhada no montante da ajuda militar americana: mais de 1,3 bilhões de dólares por ano, para se ter uma idéia do que está em jogo.. E há que considerar que, no coquetel explosivo social, temos ainda a ditadura de Mubarack, a falta de liberdade social, a razzia da censura comunicativa na internet e as novas gerações locais sem emprego. E que fazem os americanos? Somos pela democracia! E vacilam no seu apoio a Mubarack e sustentam Souleiman, o vice-presidente, chamado carinhosamente de “Al-Torturador”. Pode? Como diz um amigo meu, o Malaparte da via Veneto, “Finge que põe o branco para continuar tudo preto. É ou não é?”.

Diante desse avanço chinês, desse revival finanças-indústria bélica sustentando democracias-petróleo (e Israel no Oriente Médio), o que faz o Brasil? Patriotamente, sabemos que somos potência média, isto quer dizer, somos coadjuvantes neste Oscar. O nosso jogo é a lição portuguesa e getulista de todos os tempos: o pêndulo. Uma giro para a pirâmide e outro para o trapézio, como nos assopraria o Raymundo Faoro.

Anteontem, André e eu falávamos: o Brasil apóia os Estados Unidos na questão industrial e, portanto, pende para os americanos na questão do câmbio contra a China. E se inclina para a China na questão agrícola: é bem vindo o aumento das commodities. Mas o slogan da nossa política externa é: “Desenvolvimento e Segurança Coletiva”. O que significa apoio às políticas econômicas que desenvolvam a produção e o emprego e que busquem a segurança no sentido de permitir um trânsito para democracias as mais alargadas possíveis; desejo e projeto que incluam atender as reivindicações populares, o refreio de conflitos estratégicos e a consolidação – em todas as partes do mundo – dos direitos humanos. Não é o perfil que está se encarnando na presidente Dilma?

Mas a esta altura, todos estamos no boteco brasileiro, tínhamos acabado de ouvir Roubini, que, não sem uma certa razão, sapecava que não temos G-20 e sim G-0. Martin Wolf insiste na idéia da aceleração do futuro. Só que shakesperianamente, cena 3, chega à nossa mesa um “clown” brasileiro, um “bêbado de fim de noite”. E ele, voz arrastada, pergunta ao jornalista inglês: “Esse futuro imediato que está chegando é o G-0 ou o futuro do longo prazo?”

* Economista

Autor: Eneas de Souza*
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