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Reflexão Política

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Artigo
Vamos de especulação e tecnologia?
15/03/2012 17:20

O projeto das finanças para a sociedade atual tem dois passos: a interrupção da crise do próprio setor financeiro e um novo desenho para o processo de acumulação de capital no mundo. E é dentro dessa dupla paisagem que vai se inscrever o tema das mudanças tecnológicas do capitalismo e da sociedade contemporânea. Na verdade, ela se situa mais dentro da segunda, porém supõe a canalização da primeira para uma solução.

CAI, CAI BALÃO, MAS A QUEDA TEM QUE PARAR

O primeiro ponto vem sendo trabalhado por um plano que cobre a recuperação das instituições financeiras, via liquidez fornecida pelos Bancos Centrais Americanos e Europeus.

Isso que inicialmente foi um socorro aos bancos, agora se transformou numa hidráulica financeira, cuidando atentamente da rearticulação de toda a esfera das finanças. Essa liquidez dá a elas mais um reforço na limpeza dos títulos podres, dá a possibilidade de ter recursos em caixa, dá a capacidade de emprestar e produzir um alívio aos Estados endividados, dá a potencialidade especulativa para aumentar a sua lucratividade, e dá, também, um caminho para desempenhar pressões políticas com o objetivo de projetar definições econômicas visando dar curso às pretensões do setor.

Então, estamos vendo que a queda livre das finanças, depois da crise inaugurada no meio da primeira década do século XXI, apresenta agora novas figuras possíveis, a ponto de se vislumbrar um distinto encaminhamento, quem sabe um roteiro de solução que resolva o mau trânsito dos aviões financeiros. Era preciso encontrar na precipitação do abismo, algo que interrompesse o rumo ao precipício profundo. Primeiro, foram, pura e simples, as salvações das instituições financeiras com endividamento do Estado.

E segundo, as sucessivas operações de liquidez dos Bancos Centrais dos Estados Unidos e da Europa, com duplo efeito sobre as finanças e sobre os Estados endividados.

TERRA À VISTA?
Porém, o que é que agora está se soldando novamente? O novo amor dos bancos e do Estado. E esta soldagem está começando em tom singularmente vivo na Europa. Os Estados Unidos, por sua vez, estão em pousio, como dizem os agricultores quando põe uma terra em descanso, até a eleição de novembro. Mas, o caminho está dado.

E com profundas repercussões de política econômica. Depois da cachoeira de liquidez, temos um conjunto de medidas que rebatem sobre o próprio Estado: orçamento apertado e controle de gastos com incidência sobre funcionários – o que quer dizer: queda de salários, corte de pensões, supressão de direitos, etc. Enfim, uma ruptura de contratos com os assalariados.

E com finalidade de controlar o déficit e renegociar a dívida estatal para encurtá-la num horizonte razoável de tempo. A essas se somam as medidas que já vimos acima para atender a economia financeira. O leitor, então, tem dúvidas que está assistindo a um novo casamento do Estado e das finanças? Mas, ao mesmo tempo, está visível onde pega a garra da águia: tranquilo, nos trabalhadores.

E claro, há manifestações de revolta em toda parte, da Grécia aos Estados Unidos. Contudo, trata-se de uma manobra meramente defensiva, porque não há nenhum projeto de poder ou de contra-poder nesses protestos. Tendem a se esgotar em si mesmos, são gemidos políticos.

A gente avança na análise e percebe que não temos nenhuma medida para retomar a atividade produtiva. Porque essa política econômica é restrita, só considera o imediato da crise bancária financeira, não olha para a questão econômica como um todo. Não temos nenhuma medida, ao menos em paralelo, e secundariamente, para incentivar o investimento privado ou público e, muito menos, algum pensamento para ampliar o emprego.

E o leitor e eu não esquecemos que uma mudança na economia para toda a sociedade só se dá pelo investimento. Não tendo esse caminho, como é que as empresas estão reagindo? Elas estão aumentando a produtividade. Ou seja, se possível pagando salário menor com a exigência de um aumento de produção dos trabalhadores, seja por inovações nos métodos fabris, seja pelo corte de custo no processo produtivo, etc. Meu colega André Scherer postou no Econobrasil um artigo de Robert Reich falando sobre o tema, contando que é assim que os americanos da produção estão se virando, engordando a produtividade.

Em resumo: a soldagem das finanças e do Estado está em processo. Todavia, ela está absolutamente visível na Europa, principalmente com a colagem da Alemanha, das instituições financeiras e do Banco Central Europeu em particular. Ou seja, o amor vai se dar em novas bases. O casamento seguinte será nos Estados Unidos, e tudo dependerá se estará no poder Romney ou Obama. Mas, a cerimônia já está marcada, os convites distribuídos, janeiro começa a nova administração. O resto é silêncio público sobre a negociação privada (!) entre os partidos políticos, os candidatos e os grupos financeiros; numa palavra: entre o Estado e as finanças, negociação privada (!) que está em andamento neste momento.

E O PROJETO DO NOVO PADRÃO DE ACUMULAÇÃO?

Em verdade, temos um segundo ponto que é o objetivo desse conúbio, a nova acumulação de capital. Trata-se de desenhar as condições de configuração de uma nova economia, de um novo padrão de acumulação. Keynes, o tão repudiado Keynes pelos economistas ortodoxos, já nos disse como funciona a economia contemporânea. Ela é regulada estruturalmente pela relação entre a taxa de juros e a taxa de lucro esperada. E as finanças vencem quando a gangorra dessa regulação pende para a taxa de juros. Todavia se a gente quer que se estabeleça um novo padrão de acumulação, a inclinação tem que ser para a taxa de lucro.

Como é que a economia capitalista vai recuperar as finanças e depois vai transformar a estrutura produtiva?

Neste meio termo, é bom salientar, há um setor que vai bem, está estourando resultados e produtos: o setor de comunicação e informações. E pode-se prestar a atenção para a alta lucratividade que ele está atingindo. Só que uma zona da economia não faz toda a economia; mesmo que poreje dinheiro, que haja um Midas no meio de chips e megabytes. Porém, esse setor, mais outros setores da microeletrônica, mais os setores de novos materiais, mais os setores de biotecnologia, mais os setores de meio ambiente, mais os setores de energia, mais os setores de agrobusiness, etc., podem bombar.

E aí, sim, estaremos navegando com vento favorável, se abrirão espaços para as velas da reformulação da economia capitalista. Se isto tem base e tem fundamento, estaríamos hoje no ponto em que Carlota Pérez chama de “turning point”, onde tudo está à beira da metamorfose.
Toda essa área de tecnologia tem capacidade de dar grandes lucros, e ela está, por sua vez, ansiosa para ter mais e mais capital.

As empresas dessa área podem retornar com força ao mercado financeiro, depois da crise da economia.com na passagem do século, e arrecadar, das mais diversas formas, recursos para desenvolver os seus projetos. Existem, no entanto, dois problemas: um, é que projetos de tecnologia precisam muitas vezes de tempo para se desenvolver, são aves de longo, demorado e duvidoso voo.

Uma vez, um diretor do banco de desenvolvimento do Canadá me disse que para cada 10 projetos apoiados, apenas um dava certo. Então, é preciso muito dinheiro e trabalhar com obstinação e paciência. O segundo problema, no entanto, é o mais grave. Se a tecnologia for financiada pelo capital financeiro, a cena traz um rosto dramático, pois as finanças é um capital apressado, impaciente, um glutão: só quer resultados imediatos.

E o que faz obstáculo aqui é a estrutura das próprias empresas capitalistas, a “governança corporativa” que assegura prioridade ao valor acionário, o chamado “return on equity”. O que obriga a entidade a fazer o trabalho de Sísifo, buscar constantemente e com denodo a valorização das suas ações. Esforço que pode levar à desativação de projetos tecnológicos, os quais, se fossem deixados amadurecer no tempo, poderiam ter êxitos notáveis.

COMO CORTAR O NÓ GORDIO DA GOVERNANÇA CORPORATIVA

Esse é um dos nós, uma das encruzilhadas mais importantes para que o capitalismo possa ir avançando. Como destravar essa contradição? Há que ter uma negociação social muito candente entre os setores. Claro, existe concretamente a possibilidade de intervenção do Estado. Obama já falou disso, logo depois do “Yes, we can”. Mas, até agora, “we can´t”. Por que? Porque o Estado estava não só envolvido com a salvação dos bancos, mas também com a sua própria salvação de Estado. E daqui para o futuro, não há frouxidão, só dará uma política de austeridade.

Logo, ou se acha um jeito das finanças se aliarem à tecnologia (resolvendo a questão da governança corporativa, inclusive), ou o Estado proporciona os recursos indispensáveis para o amplo desenvolvimento tecnológico dos setores dinâmicos. Entretanto, com as finanças novamente dominando politicamente o Estado como é que isso vai acontecer? Pois aqui surge a forma de uma verdade dramática: as finanças vão ter que aceitar a supressão da exigência de financeirização da empresa da nova tecnologia.

Terá as finanças esta abertura?

Mas, leitor, veja, está tudo concentrado aqui. Ou pela articulação das finanças com a tecnologia, ou pelo Estado garantindo o encontro entre a especulação financeira e as aplicações em tecnologia é que o mundo poderá olhar a sua nova cara econômica, o seu novo padrão de acumulação, unindo as esferas financeira e produtiva e dar partida a uma outra economia capitalista.

Na verdade, a economia só se resolverá pelo lado capitalista se houver uma revolução capitalista nas finanças e na produção. E essa não deixará de passar pelo Estado. É a política que vai comandar a banda. Só aí, nesse instante, é que a lucratividade dos setores de capital retornará a mar aberto e, no seu desdobramento, proporcionando condições para a expansão muito intensa do emprego. Para tal, existem tarefas a cumprir: recuperar as finanças, recuperar o Estado, aglutinar as finanças e a produção, e sustentar a força de trabalho até que se dê a expansão do emprego.

SÓ AS PERGUNTAS PERMITEM QUESTIONAR O CAMINHO

Perguntas. Primeira: é possível as finanças aceitarem a necessidade de introduzir e completar o círculo virtuoso: finanças – Estado – produção, antes que acontecimentos geopolíticos possam atrapalhar essa nova rota do capital? Ou Arrighi e Wallerstein terão razão e isso não será possível. O capitalismo pode vicejar por um bom tempo nesse deserto de recessão, pequenas expansões, novos embaraços, etc. Por isso, a segunda pergunta: mas se não se construir uma economia, vamos a qual lugar: capitalismo ou a outro sistema econômico? Qual?
Pois é, formula-se uma terceira questão: estamos, então, no escuro?

Quarta pergunta. E por que todas essas perguntas? Na verdade, este pequeno exercício de futuro econômico feito acima, pode servir para nos orientar como é que as forças sociais estão compondo os seus projetos e os seus porvires. Trata-se da tentativa de compreender o game social do presente. Não estão incluídos no pacote os jogos da geopolítica. Mas no desenho da economia a vir, ele nos dá tanto as arenas dos combates como os campos de negociação, tanto as terras de aliança, como os territórios da adversidade. Estamos, com ímpeto, na senda do virtual. E no mais perfeito reino da contradição.

Como diria o poeta Thiago de Mello: faz escuro, mas eu canto.


Autor: Enéas de Souza - economista
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