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Reflexão Política

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Artigo
A respiração da indústria brasileira
10/04/2012 14:45

A interpretação do momento é muito complexa. Existem as medidas que o governo federal tomou no contexto do plano “Brasil Maior”. Mas esse plano existe no meio de uma realidade mais ampla, que é a transformação da mundialização e da inserção do Brasil nesse cenário. Assim, temos que ter um olho no nível das empresas, das corporações e do setor industrial – dentro do que se chama economia brasileira – e outro, no que ocorre no mundo. E esse olhar não pode deixar de perceber o papel que o Estado brasileiro quer cumprir na atual competição geoeconômica planetária.

Então, como um jardineiro que vê suas flores no jardim da economia, podemos ordenar e nomear os marcos que balizam essas medidas. Elas tornam-se claras ou passam a ser entendidas se consideramos que elas fazem parte:

Do modo como se dá a nova ordem geoeconômica do mundo, onde se tece a mudança das relações entre as finanças e a produção, no caminho para a construção de um novo padrão de acumulação capitalista mundial;

Do modo como essas transformações estruturais têm efeito no Brasil e a resposta do país e das empresas localizadas aqui no quadro dessas amplas mudanças;

Do modo como os Estados nacionais, no caso o Brasil, respondem política, estratégica e operacionalmente através da formulação e da execução de uma política econômica nacional;

Do modo como essa política econômica brasileira se configura em face tanto do que acontece na dimensão interna quanto da face externa da economia nacional, sabendo-se que o Estado é um operador essencial na tensão da concorrência interestatal, da concorrência intercapitalista nacional e mundial, na relação econômica e política entre o capital e o trabalho;

Do modo como as empresas brasileiras participam nesse conjunto amplo da geoeconomia e da geopolítica mundial. O ponto básico dessa inserção se dá por intermédio da produção e da circulação de seus produtos na singularidade e no entrelaçamento do mercado nacional e do mercado mundializado. Estão envolvidos níveis de tributos, créditos à produção, créditos à exportação e medidas específicas para um ou outro setor, por exemplo, para o novo regime automotivo;

Do modo como os Estados, em função da competição dos capitais e da concorrência entre os próprios Estados, respondem com projetos – ou não – de política econômica de desenvolvimento. Mas sobretudo como operam na conjuntura seja com medidas de liquidez (como os Estados Unidos e Europa), seja com planos nacionais (China), seja com medidas atentas no dia a dia, envolvendo as Fazendas, os Bancos Centrais, seu sistema bancário-financeiro, seus órgãos no comércio exterior, etc.

Do movimento das estruturas profundas da economia capitalista mas que se fazem presentes na conjuntura e que emergem no dia a dia, e em todos os níveis, e que visam mudanças nas empresas, setores e Estados, para a construção desse novo longo prazo. É preciso ficar atento ao novo no desbancamento do velho. E ver o que do novo veio para ficar e o que do velho se transforma para mudar.

QUE MUNDO ESTÁ VINDO?

Então, o que está em jogo no momento é uma nova etapa do desenvolvimento capitalista do mundo. E o Brasil de Dilma mostra a sua posição e a sua potência. É um guerreiro novo, coruscante, que tenta melhor posição do que já teve. E trabalha para entrar nesse clube que está se formando.

E o que está se encenando é um reposicionamento dos capitais na construção de uma nova ordem. Isso quer dizer que a necessidade de uma nova economia centrada num dinamismo tecnológico outro – do mundo digital, do mundo dos novos materiais, da nanotecnologia, da biotecnologia, etc. – vai impor à economia uma nova estrutura.

E nela, a trajetória especulativa das instituições financeiras terá nova situação, certamente viva, mas subordinada à expansão produtiva. O fato contundente e determinante de tudo foi a crise financeira mundial, a crise da liderança das finanças, mas que trouxe consigo também a crise da velha economia. Foi a camélia que caiu do galho, como dizia a velha música de carnaval. Tecnicamente, esse fenômeno chama-se de superacumulação de capital: superacumulação financeira e superacumulação produtiva.

Assim quando a noite chega, os homens esperam a manhã, ou seja, o mundo se encaminha para uma reestruturação da economia mundial. Mas, atenção isso se faz com muita luta, uns ganham outros perdem, e toda luta leva tempo, tem a sua duração. Mas, o combate está solto.

O ENLACE DO MUNDO E DAS NAÇÕES

Agora, olhemos mais um pouco para o cenário atual: o leitor chegará à conclusão que o espaço econômico nacional, na verdade, é atravessado, em muitos lugares, pelo espaço mundializado. Ou seja, os mercados não são nacionais somente, mas também são mundiais, porque eles estão interconectados de uma forma ou de outra.

Vem daí a questão tão discutida da desindustrialização, da proteção às indústrias, do fechamento das economias nacionais, das possibilidades de intervenção e das limitações do Estado nacional.

O NOVO AMBIENTE DOS NEGÓCIOS

1) Napoleão todo dia, depois de acordar, perguntava sempre: onde estão as minhas tropas? Pois é isso que a Dilma, o Mantega e o Tombini tem que fazer; e estão fazendo. Por essa razão – e salientaram muito bem vários empresários – o que mais agradou no pacote de terça foi a atitude do Governo brasileiro. Os discursos de Dilma e Mantega. Dilma falando contra a alta dos juros praticada pelos bancos. Ela estava dando o sinal de que os tempos da especulação do cassino financeiro começam a terminar.

O jogo é botar as finanças no seu lugar. Por isso, Dilma vai mover a pedra dos bancos estatais para forçar a taxa de juros para baixo, terminar com a festa improdutiva, mas insana, dos juros elevados. Já Mantega no seu discurso disse que estará permanentemente atento ao câmbio, pronto para atuar quando for necessário, porque, no momento, está influenciando fortemente na economia, seja na competitividade da indústria nacional, seja nas contas externas do país. Essa posição de vigilância agradou.

E mostrou que o Brasil parece atento e responde às múltiplas medidas dos outros países, como as medidas de liquidez, as medidas protecionistas, etc. Mas, vejam, é o momento de reforçar a produção. E nada melhor do que criar um ambiente favorável ao investimento, à produção sobretudo, mostrando uma posição contra os dois lugares onde as finanças fizeram e faziam a sua festa: o câmbio e os juros. Claro, a guerra está mal começando.

2) Para uma análise da realidade dessas medidas do pacote (desoneração da folha de pagamento, crédito à exportação, aumento no volume dos recursos para o Programa de Sustentação dos investimentos, redução de tributos da infraestrutura portuária e ferroviária, incentivos ao setor de telecomunicações, apoio ao novo regime automotivo, etc.) é preciso tanto ir aos detalhes e aos diversos setores (coisa que não temos condições de fazer aqui) como vê-las sob a luz de um projeto nacional, que se afigura a cada instante mais claro.

E cada vez fica também mais saliente, como um objeto numa imagem em 3D, a posição da Dilma: trata-se de jogar o país na concorrência mundializada sem deixar de “regular” e proteger a economia brasileira. Essa coisa não tem volta. Estamos numa época de nacionalismo distinto, trata-se do nacional dentro do mundial. E não do nacionalismo face apenas a outros nacionalismos.

E nunca esqueçamos, esse nacionalismo vive dentro do projeto dos capitais de reformulação da antiga ordem mundial. No caso brasileiro, a mudança da economia se faz junto com uma proposta social de erradicação da miséria. O que é o possível no confronto dos grupos sociais do momento.

(Entre parênteses, temos duas perguntas: como é que a classe trabalhadora vai responder a desoneração da folha de pagamento? Essa desoneração é um avanço e uma antecipação sobre o tema do confronto entre o capital e o trabalho nas economias do mundo? Quem tiver hipóteses ou souber a resposta que fale!)

3) Finalizando, o que importa ver é que o Brasil tem um projeto de integração do país no novo padrão de acumulação, através da Petrobrás, da Vale e do agrobusiness. Em torno da Petrobrás se organiza, de forma fundamental, um eixo no qual se enlaçam na sua cadeia produtiva empresas nacionais.

A Petrobrás é, na economia brasileira, um polo dinâmico capaz de reorganizar, em parte, o Brasil. Aliás, a nossa meia cancha econômica é a Petrobrás, a Vale e o agrobusiness, esses dois últimos com dinamismos menores. No outro lado da economia brasileira, temos outro polo dinâmico ao redor de obras públicas, de tal modo que as empresas da construção civil funcionarão para desemperrar estradas, transportes, armazenagem, portos, aeroportos, etc., mas também para atuar, como já está ocorrendo, no setor imobiliário, inclusive na habitação popular.

Pois se vale essa visão do projeto de política econômica para a economia brasileira, o analista deve ressaltar que as medidas tomadas pelo governo Dilma visam apoiar setores específicos como os automóveis, mas também às empresas que atuam competitivamente na concorrência capitalista mundializada e nacional. Deu para ver que o Brasil está concebendo uma política econômica centrada na Presidência da República, que sabe o que faz.

É por isso que, no final da cerimônia, alguns empresários chorões como os antigos agricultores, comentando as medidas, disseram que o governo tinha boa intenção. Mas faltava isso, faltava aquilo. E mais aquilo lá e mais aquilo outro. E um deles presidente de uma entidade empresarial falou: “É pode até dar certo! Como dizia um professor de economia amigo meu: “quando você chega à mesma opinião que os empresários e eles te elogiam, você está certo”. Será que a Dilma com a sua estratégia e a sua política, calibrada passo a passo segundo as necessidades e as possibilidades, está acertando a respiração que precisa a economia brasileira?

Autor: Enéas de Souza - economista
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