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Reflexão Política

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Artigo
Movimentos sociais na sociedade em rede
18/06/2013 09:30

“As manifestações têm grande apoio popular e não podem ser desautorizadas nem descredenciadas pelas violências cometidas por uma minoria”.
Governador Tarso Genro no jornal Valor Econômico,

As recorrentes e crescentes manifestações ocorridas em Porto Alegre não devem ser compreendidas e apanhadas como ações isoladas mas, sim, como parte de um mesmo fenômeno social que vem se manifestando pelo mundo e que no Brasil aparece, de forma mais acentuada, aqui em Porto Alegre, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília, Belo Horizonte e Fortaleza.

Há poucos dias esteve em nossa cidade o sociólogo, pensador, professor e pesquisador espanhol Manuel Castells, que estuda e investiga já há quase três décadas, os efeitos da era da informação sobre a economia, a cultura, a política, as instituições e os rumos da sociedade. É dele a síntese lapidar das relações de comunicação e informação num tempo de revolução digital, de profundas e aceleradas transformações que impactam a política e o relacionamento em sociedade, principalmente com as novas mídias. Diz Castells: “nunca mais os governos, instituições, corporações, empresas, entidades, indivíduos, etc … poderão estar seguros de manter seus cidadãos na ignorância de suas manobras”.

Em sua produção teórica, resultado de longas pesquisas e verificações práticas, ele encontra no paradigma tecnológico da era em que vivemos, baseada na informação e na comunicação, o principal organizador do novo modo de desenvolvimento do nosso tempo.

É examinando de forma rigorosa, mas com uma visão muito aberta, à semelhança como já fazia aqui no Brasil o pesquisador e professor Theotonio dos Santos já ao longo dos anos 80, que Castells, na sua obra clássica “A Sociedade em Rede” (1999, Ed. Paz e Terra), começa a visualizar, de forma mais visionária, que a “Terceira Revolução Industrial”, como se chamava à época, ou mais precisamente a “Revolução Técnico-Científica” como passou a ser nominada desde então, iniciaria um período de intensas, surpreendentes e aceleradas transformações. Anunciando o fim de uma era industrial e descortinariam outra, determinando toda a dinâmica econômica, social, cultural e de relações em sociedade a partir daquilo que já se cunhava como a “Era da Tecnologia da Informação”.

Digo isto para que possamos entender que as tentativas de compreender este período, que se abria já nos anos 80 e 90 do século passado, foram fundamentais para que hoje, possamos ao menos começar a visualizar melhor aquilo que de início eram apenas alguns jovens aficionados na internet. Mas que foram ampliando, passando de centenas a milhares e hoje ganham milhões de adeptos que buscam conectar e dividir suas incertezas, inquietudes, inseguranças, instabilidades, esperanças confusas, indignação e preocupações necessárias com o seu futuro e quiçá da humanidade, naquilo que já se chama de “livre espaço público da internet” ou o seu seguro “espaço público do ciberespaço”, diante dos cada vez menores ou mesmo ausentes espaços públicos reais.

É cedo para caracterizações ligeiras e simplificadas, ou para criminalizações dos movimentos, mas pode ser tarde se não ousarmos compreender o momento que vivemos, para se buscar a resposta que sempre se necessita: para onde caminha a humanidade e a nova geração conectada em redes no “espaço público do ciberespaço” e no real espaço público urbano? Esta resposta só poderá ter uma pista se tentarmos interpretar ou buscar algumas hipóteses de compreensão que estão determinando a natureza dos movimentos sociais em redes nos dias de hoje, os rumos das mudanças sociais de nossa época, a formação do pensamento social e econômico, os valores, as dinâmicas das transformações culturais, dentre muitas outras.

Hoje estes movimentos sociais em redes tomam o mundo e se expressam nos espaços públicos reais. Perpassam os governos, as instituições políticas, os poderes, as representações, as empresas, os monopólios de mídia, as corporações e as entidades, parecendo não ser apenas a miséria, a ausência de democracia ou as crises econômicas os causadores destes desvanecimentos com tudo e com todos, que aparenta estar pondo fim ao contrato social de nosso tempo e exigindo um novo formato contemporâneo. Pois sem esta confiança de acordo nada funciona e a decorrência é que todas as relações e instituições se dissolvem. E o que é uma sociedade sem esta aglutinação? Serão apenas indivíduos lutando isoladamente por sua sobrevivência.

É neste contexto que, a um só tempo, a indignação e a esperança que as conexões em redes do ciberespaço propiciam, começam a constituir movimentos sociais de enormes dimensões e proporções no espaço público real. É através da união no seguro “espaço público do ciberespaço”, que esta geração destituída de espaço público urbano, faz transitar suas múltiplas lógicas e busca transformar medo em indignação, emoção paralisante em esperança e dignidade, muitas vezes incursionando num grande voo cego em busca de um destino, talvez sem ter muito claro onde quer chegar, mas, quem sabe, podendo ao menos estar forjando sua autoconsciência.

E são nestas redes sociais da internet, autônomas em relação aos poderes e monopólios, que compartilham seus sentimentos e as esperanças a despeito das suas ideologias e filiações organizacionais. E é este universo sem fio da internet, que contagia de forma rápida e instantânea as relações em sociedade em âmbito global, que espalham ideias e imagens simultaneamente, em um mundo desprovido de utopias, mas onde estes jovens podem despertar e embalar seus sonhos.

Foi assim com a “Primavera Árabe” no Oriente Médio e Norte da África; na Islândia, a chamada “Revolução do Panelaço”; os “Indignados” na Espanha; o “Occupy Wall Street nos Estados Unidos, contra a gestão equivocada da crise econômica e mais recentemente na Turquia, onde o protesto contra a derrubada de um parque em Istambul, desencadeou uma série de manifestações pelo país.

Há uma marca central em todos estes movimentos: uma forte e constante interação e conexão entre as redes sociais e suas ações físicas nos espaços urbanos reais.

E o que parece significar tudo isto no nosso tempo? Pode se tratar de uma fase nova de um velho processo? Ou uma sociedade pós-industrial um pouco mais complexa? Ou um nítido momento de indicação de que os modelos teóricos que norteiam a sociedade e orientaram nossa geração militante de esquerda, são insuficientes para explicar o presente e também antecipar o futuro?

O que vemos objetivamente são que enormes alterações no nosso modo vida. Movemo-nos hoje sob o signo da conexão e reintegração permanente, referenciados centralmente pela tecnologia da informação, sustentada nas descobertas e avanços da microeletrônica. Que alteram significativamente as relações trabalho e vida, casa e escritório, estudo e lazer, quantidade e qualidade, saber e ética, a atividade manual e a intelectual, desenvolvimento e meio ambiente, inclusão e qualidade de vida e a dimensão transnacional dos problemas e suas soluções.

E toda esta relação em rede, se traduz no espaço real, qual seja, no território, portanto nas cidades. Mas parecem ser cidades sem território e sem fronteiras, com seu âmbito doméstico bastante dilatado, assemelhando-se a recipientes do mundo, onde a cultura de cada um e de todos vai se misturando com a do planeta. Com a cabeça girando pelo mundo, enquanto o corpo permanece no território. Como se fosse uma “Telepólis” em ação conectada, que faz de cada cidadão e de cada cidade um todo no âmbito local, mas ao mesmo tempo também do mundo.

É como diz Castells: “vivemos em tempos de redes de indignação e esperança, … e uma centelha acendeu o fogo no céu, numa paisagem social diversificada e devastada pela ambição e manipulação em todos os recantos do planeta azul.”

Logo se considerarmos somente nossa Porto Alegre, veremos que estas reações já vêm acontecendo há algum tempo em várias áreas. Possuem uma dinâmica que articula o que poderíamos chamar de “movimento em pinça”: combinados e convocados no “espaço público do ciberespaço”, ou seja, no livre espaço público da internet, mas se concretizando como grandes movimentos e manifestações no real e necessário espaço público urbano.

Reitero, por exemplo, que o surgimento do “Massa Crítica” é uma forma de protesto e de busca de uma saída para o nosso caos na mobilidade urbana. Onde a questão dos ônibus é reveladora da indigna humilhação das pessoas que ficam diariamente várias horas “assardinhadas” nos coletivos. O “Cidade Baixa em Alta” é um movimento que surgiu de forma reativa e alternativamente, ao fechamento dos bares naquele tradicional bairro de cultura, entretenimento e convivência.

Temos ainda o “Grupo Anita Mais Verde” e o movimento “Em Defesa do Morro Santa Teresa”. E os exemplos, mesmo que possam ser reducionistas, não param aí. Foram muitas as manifestações em relação ao Araújo Vianna quando este esteve fechado; os encontros de jovens à noite pedindo para iluminarem os parques; as recentes mobilizações motivadas pelo corte das árvores no Gasômetro e as queixas sistemáticas das pessoas contra o mau estado dos passeios(calçadas) das ruas da cidade.

Se observarmos sociologicamente, e com o mínimo de rigor tais movimentações, elas revelam-se, de um lado, manifestações reativas à ausência de diálogo; e de outro, às sucessivas políticas de restrições do espaço público.

Por mais necessárias e importantes que sejam as obras de infraestrutura, e o são, um governo, em nome delas, não pode tudo. Nem prescindir do diálogo permanente com a cidade, despregando das relações em sociedade; nem pode renunciar à condição de ser o principal promotor da construção do espaço público democrático urbano, que garanta o direito de mobilidade e de ir vir das pessoas e também de se expressar.

Movimentos sociais de protestos que temos assistidos, não são estranhos a Porto Alegre, sobretudo por sua história de cidade culturalmente universal e tradicionalmente instigadora, que sempre foi capaz de dar espaço para a indignação e a esperança e sistematicamente rejeitou políticas e gestões pouco republicanas.

A persistir o aprofundamento destas políticas, de descuido e abandono com as pessoas, que levam à uma cidade segregada, fragmentada e confinada à ausência de espaços públicos, onde a juventude “já não pode mais fazer ruído”, estes movimentos hoje pontuais, caminharão aceleradamente para enfatizar o questionamento central sobre os rumos de nossa Porto Alegre: que cidade queremos?

Este é o fenômeno que temos que entender, porque nossos jovens, é certo, já dão fortes sinais na esfera pública real, exigindo a prática daquilo que disse aqui mesmo, no ano passado, o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa: “uma cidade é para servir as pessoas e não o inverso”. Portanto, uma cidade sustentável, saudável, segura, da diversidade, inovadora e com participação.

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Adão Villaverde é professor, engenheiro e deputado estadual PT/RS
Artigo publicado no jornal Sul21 em 18.06.2013

Autor: Adão Villaverde
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